Cafezinho 466 – O banco traseiro
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No começo dos anos 1960, em Bauru, meu pai comprou seu primeiro carro, um Lincoln Humpmobile 1941. Era o carrão da família, comprado de segunda, terceira ou quarta mão. Eu tinha cerca de sete anos de idade e aquele automóvel imenso tinha um grande banco traseiro onde eu me esbaldava junto com meus irmãos mais novos. Aquele banco era o universo das nossas aventuras. O carro, que já tinha mais de 20 anos, vira e mexe parava na rua com algum defeito. Ninguém ligava para a seguradora mandar o guincho… Foi então que meu pai começou a ter problemas com dores nas costas. Um dia ele foi ao médico e, após os exames de praxe, ouviu a pergunta fundamental:
-Que carro o senhor tem?
E o médico descobriu que meu pai empurrava o Lincoln pesadíssimo. Receitou então:
-Troque de carro que as dores passam.
Pois bem, quarenta anos depois visitei um fantástico museu do automóvel – que infelizmente não existe mais – em Canoas, no Rio Grande do Sul. Andando pelo corredor, dei de cara com o quê? Com um Lincoln igualzinho ao do meu pai! Imediatamente pedi: “Ô, posso sentar no banco de trás”? Com o coração disparado abri a porta traseira… E tomei um susto! Aquele banco imenso para aquele garoto de sete anos agora era um tímido banquinho para o senhor de quase cinquenta. Foi uma imensa decepção. É impressionante como o tempo diminui o tamanho das coisas… Eu não me preparara para o fato de em quarenta anos ter crescido na altura e na largura, mudado o ângulo de visão e começado a ver o mundo sob outra perspectiva. Hoje, dezenas de automóveis depois, 80 quilos a mais e sem a liberdade de imaginação da criança, é impossível reviver as mesmas sensações, escolhas e impactos que senti. E se é assim com uma experiência pessoal que vivi intensamente, imagine como é com os fatos que não vivi e que se perdem na história, 50 ou 60 anos atrás… Por isso não me conformo com a quantidade de gente que pauta o debate político com fatos que aconteceram antes delas terem nascido. Como se o Brasil fosse o mesmo daquele banco traseiro antigo. A fila anda. O tempo passa. A gente muda. O mundo é outro! Vira o disco, meu!
Saí do velho automóvel e continuei a caminhar até encontrar o carro que meu pai comprou para substituir o Lincoln Continental: um Renault Gordini.
Nunca mais ele teve dores nas costas.
Esta reflexão continua no vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=abIn82Zgdes
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